domingo, 12 de abril de 2009

Poesias de Paulo Aires


PERTO DO FOGO

Fósforo insone à beira do abismo,
Aflição de fruta madura, vulcão delirante:
Vida, vida, mil vezes vida,
Brasa em madeira verde.
Rumor de trigo na língua insaciável.
Vida, vida, vício que não se cura.
Vida que se ganha e que se perde.
Este barro, este sopro,
Este breve e belo sonho torto.
Sigo aprendendo do fogo
A lição dos olhos que dormem
E renascem por pura teimosia,
Contrariando a inveja das cinzas.




PRECE OUTONAL

Tu tens parentesco com os oráculos da primavera.
Palavra de livro incandescente,
Cabelos azuis desperdiçando luas.
Tua face é amante dos ventos gerais,
Só pode, eu creio e canto!
Festiva criatura de paixão e pedra,
Feita no oitavo dia da criação.
Íntima de deuses generosos,
Conduz a bula de certos milagres.
Olhos agrestes, sorriso largo num rosto camponês.
Homilia de mel e milho – certidão de luz e liberdade.
Ajuda-me a percorrer este tempo
De tempestade e assombro!


PRIMEIRO TESTAMENTO

O breviário das interrogações
Aderiu-se ao meu patrimônio.
Minha sede é recorrente,
Pertence aos rudimentos
Das coisas sem valia aos olhos do mercado.
Ocupei meus dias com livros assanhados,
Bulas venenosas, amizades de pedra e flor,
E certos utensílios para cuidar do amor.
Disso não me arrependo!
Colecionei abraços sem data de validade.
Guardei beijos sem piedade da carne.
Sorrisos que ganhei ocupam as janelas de minha casa -
Devem frutificar, sem data marcada.
Atravessando este tempo obscuro,
Sigo amando – ocupação para a vida inteira!






TARDE DE JANEIRO

Senhora de um sonho antecipado
Plantando estrelas no meu peito de náufrago.
Não houve notícia daquele fogo que se precipitava
Ante a noite que ainda não se soube plenamente iluminada.
Te descobri como uma senha roubada
Do bolso de um deus displicente.
Tua alegria, tua enorme alegria,
Como flor aberta de tua chama interior.
Era tarde de janeiro. Fazia sol
Quando teu breviário de vida e esperança
Decretou luz na minha alma esfarrapada.
Por isso, vou escrever no muro da tua casa:
És tão bela e forte quanto o Rio Tocantins,
Antes das barragens!



(Paulo Aires, do livro “Perto do Fogo:
Trilogia do Amor, da Terra e da Esperança” – no prelo)

Um comentário:

  1. Obrigado, Joana, pela citação deste poeta do cerrado tocantinense!
    Abraço

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